"Charcos Temporários: um habitat natural a proteger!"

Levantamento da biodiversidade dos charcos concluída

> Projeto LIFE Charcos concluiu os levantamentos para a biodiversidade dos charcos temporários através da compilação de toda a informação ecológica, atual e histórica, estabelecendo a situação de referência para os charcos da Costa Sudoeste.

 

Foi concluída a fase de avaliação da situação de referência do estado de conservação dos charcos temporários que permite consolidar o conhecimento científico sobre a informação ecológica deste habitat no Sítio de Importância Comunitário da Costa Sudoeste.

Para levar a cabo esta tarefa, para além da compilação de mais de 700 referências bibliográficas sobre o conhecimento científico deste habitat (disponíveis aqui), as equipas de biólogos da Universidade de Évora, da Universidade do Algarve e da LPN visitaram regularmente ao longo de 2 anos em 89 charcos onde se registaram as espécies presentes da flora e de vários grupos de fauna, como crustáceos de água-doce (grandes branquiópodes), anfíbios, répteis, micromamíferos, morcegos e aves.

Os resultados destes levantamentos, para além de permitirem estabelecer a situação de referência, vêm reforçar e ampliar o conhecimento que existia anteriormente sobre este habitat de conservação prioritária.

Na avaliação florística foram identificadas 248 espécies de plantas, variando a riqueza específica presente em cada charco entre 13 e 72 espécies de plantas. De notar que foi relatada a ocorrência de 11 espécies de plantas com estatuto de proteção ou com distribuição restrita, nas quais se inclui a Caropsis verticilato-inundata com estatuto de conservação Vulnerável.

Caropsis-verticillato-inundata

No que se refere aos crustáceos de água-doce, os grandes branquiópodes, os Charcos Temporários da Costa Sudoeste albergam 6 espécies, que representam 50% das espécies que ocorrem em zonas húmidas temporárias de Portugal Continental. Em alguns charcos foi possível encontrarem-se simultaneamente 4 destas 6 espécies. O conhecimento adquirido indica também um aumento do número de charcos onde ocorrem duas espécies de camarões-fada (Branchipus Cortesi e Tanymastix Stagnalis). Salienta-se ainda o valor para conservação do camarão-girino (Triops vicentinus), espécie endémica do Sudoeste de Portugal, cujo género (Triops) é considerado um fóssil vivo, do qual existem fósseis com 180 milhões de anos.

Camarão-girino (Triops vicentinus)

Foi também registada nestes 89 charcos a presença de 13 espécies de anfíbios. Os mais comuns nestes charcos do sudoeste são o sapo-de‐unha‐negra (Pelobates cultripes), a salamandra‐de‐costelas‐salientes (Pleurodeles waltl), a rela-magrebina (Hyla meridionalis), o sapinho‐de‐verrugas‐verdes (Pelodytes punctatus), a rã‐de‐focinho‐pontiagudo (Discoglossus galganoi) e o tritão‐marmoreado-pigmeu (Triturus pygmaeus). Em geral verificou-se que os charcos de maiores dimensões e com maior variedade de micro-habitat albergam maior riqueza de anfíbios.

 

sapo-de‐unha‐negra (Pelobates cultripes)

No grupo dos micromamíferos avaliados, nos quais se incluem o Rato‐de‐cabrera (Microtus cabrerae) e o Rato-de‐água (Arvicola sapidus), verificou-se que os complexos de charcos mais importantes para estas espécies localizam-se na região de Vila Nova de Milfontes, onde um elevado número de charcos apresenta uma ou as duas espécies. Salientou-se a importância dos charcos de maior dimensão porque proporcionam maior área de habitat para estas espécies. Os resultados obtidos permitiram aumentar a área de distribuição conhecida para o Rato-de‐cabrera em cerca de 30 km para sul.

Rato-de-cabrera (Microtus cabrerae)

Foram ainda detetadas 17 espécies de morcegos, entre as quais algumas espécies Criticamente Ameaçadas, como o morcego-de-ferradura-mourisco (Rhinolophus mehelyi) registado em dois charcos. Os dados recolhidos representam um aumento da área de distribuição conhecida para várias espécies de morcegos, como por exemplo o Morcego-Negro (Barbastella barbastellus), o Morcego-Orelhudo-Castanho (Plecotus auritus) e o Morcego-Orelhudo-Cinzento (P. austriacus).

Morcego-Negro (Barbastella barbastellus)

Nesta ação verificou-se também que a análise global dos indicadores recolhidos para a qualidade da água confirma a relação entre uma boa qualidade da água e a presença de uma maior biodiversidade.

Os resultados obtidos põem em evidência a importância dos Charcos Temporários Mediterrânicos, não só pela elevada riqueza específica como também pela ocorrência de espécies únicas. Assim, numa paisagem em contínua transformação, estes habitats apresentam‐se como autenticas preciosidades que importa preservar.

Este projeto pretende ainda estabelecer critérios de avaliação do estado de conservação dos charcos temporários, de modo a criar um índice para avaliar o seu estado de conservação, e definir diretrizes para a sua gestão. Para cumprir os objetivos a que se propõe, a equipa do projeto está a trabalhar em proximidade com os proprietários e restantes utilizadores do território.


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